🚗 O Inteligente Cícero
O pequeno Cícero, na inocência de seus sete anos, tem um pedido impossível para Papai Noel atender. E apesar dos argumentos convincentes dos pais, o menino acha uma inteligente saída para resolver o seu caso, neste fragmento de um conto de Antônio de Alcântara Machado.
— Eu quero um automóvel igual ao de titio, pronto!
— Que é isso, Cícero? Um Ford? Para quê? Você é muito pequeno ainda para ter um Ford.
— Mas eu quero, pronto!
Dona Francisca deixou o filho, muito preocupada, e foi confabular com o major. Mas o major achou logo a solução do problema.
— Tenho uma ideia genial!
Tapou a ideia com o chapéu e saiu. Dona Francisca balançava o corpo na cadeira de balanço, louca para adivinhar.
Às sete horas da manhã, Cícero, sem sair da cama, esticou o pescoço para examinar um automóvel deste tamanhinho, parado no meio do quarto. Meio tonto ainda, deu um pulo e foi ver o negócio de perto. Em cima do volante tinha um bilhete escrito a máquina:
"Meu querido Cícero. Dentro de meu cesto não cabia um automóvel grande como você pediu. Por isso deixo este que é a mesma coisa. Tenha sempre muito juízo e seja bonzinho para seus pais. (a) São Nicolau."
Cícero soltou dois ou três berros que levantaram no travesseiro os cabelos cortados de dona Francisca. O major enfiou os pés nos chinelos e foi ver o que havia. Cícero pulava de ódio.
— Mas você não viu o bilhete, meu filhinho? Quer que eu leia para você?
— Eu não quero essa porcaria!
O major encabulou e se ofendeu mesmo. Dona Francisca veio também saber da gritaria.
— Mas então, Cícero! Não chore assim. Você chorando São Nicolau nunca mais traz um presente para você.
— Eu não preciso de nada!
Confabular: conversar com familiaridade.
Major: trata-se, na história, do pai do menino.
Tinha um bilhete: trata-se de uma construção popular, comum nos autores modernos. Em melhor Português diríamos: havia um bilhete, pois o verbo ter não pode ter o sentido de existir.
Observe que é engraçado o fato de o autor dizer que São Nicolau deixou um bilhete escrito a máquina.
a: Abreviatura de assinado.
O major já alimentava a sinistra ideia de passar um dos chinelos do pé para a mão. Dona Francisca, pelo contrário, ameigava a voz.
— Ah, meu benzinho, assim você deixa mamãe triste! Não chore mais.
O major foi-se aproximando do filho assim como quem não quer nada.
— Deixe, Neco. Agradando arranja-se tudo.
Do lado de lá da cama, o Cícero desesperado da vida. Do lado de cá os carinhosos pais falando alternadamente. Sobre a cama (já com um farol espatifado) o pomo da discórdia.
— Papai Noel é velhinho, não pode carregar um cesto muito grande.
— Depois, por grandão que fosse, não podia caber um Ford de verdade dentro dele.
— É. E se cabesse...
— Se coubesse, Francisca!... se coubesse São Nicolau não aguentaria com o peso. Está cansado, não tem mais força.
Cícero foi retendo a choradeira.[..... Os últimos soluços foram os mais doidos de todos para engolir. Mas parecia convencido.
— Então? Não chora mais?
Assumiu uns ares meditativos. Em seguida pôs as mãos na cintura. Pregou os olhos no pai (o major, sem querer, estremeceu). Disse num repente:
— Se ele não podia com o peso, por que não deixou o dinheiro para eu comprar o Fordinho, então?
Nem o major, nem dona Francisca tiveram resposta.
Este é um exemplo de diálogo em forma dramatizada.
"O inteligente Cícero", in: Brás, Bexiga e Barra Funda e Laranja da China, São Paulo, Livraria Edit. Martins, s/d, p. 141
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