O Que São Fronteiras Profissionais?

Fronteiras profissionais são componentes que constituem a estrutura terapêutica. Elas podem ser consideradas a representação de uma "margem" ou limite do comportamento adequado do psicoterapeuta psicanalítico na situação clínica.

Terapeutas são profissionais que estão sendo pagos para um serviço e, portanto, devem reconhecer que um poder diferencial sempre existe na psicoterapia psicanalítica de um paciente.

Muito da recente atenção às violações das fronteiras profissionais derivou de um crescente conhecimento dos casos de relações sexuais entre terapeutas e pacientes e dos danos relacionados a essas transgressões.

Outras fronteiras significativas, que não envolvem contato físico, são elementos como:

  • A hora e o lugar de uma entrevista
  • Sua duração e a confidencialidade
  • A evitação de relacionamento social ou financeiro com um paciente
  • A excessiva autorrevelação pelo terapeuta
  • A recusa delicada de presentes generosos do paciente
"Os psicoterapeutas psicanalíticos tentam ser úteis e imparciais, entender em vez de criticar e estar dispostos a privar-se de sua própria gratificação no interesse de ajudar seus pacientes naquilo que os trouxe ao tratamento."
Ética Profissional
Estrutura Terapêutica

📜 Contexto Histórico

Freud estava bastante preocupado com as transgressões de seus discípulos desde os primórdios da psicanálise.

Casos Históricos de Preocupação:

  • Ferenczi analisava Elma Palos, filha de sua amante Gizella Palos, e apaixonou-se por ela.
  • Jung esteve envolvido com Sabina Spielrein.
  • Stekel era bem conhecido como um sedutor de mulheres.
  • Ernest Jones indicou, em uma carta a Freud, que a mulher com quem vivia, Loë Kann, também tinha sido sua paciente.

Freud estava tão preocupado com o impacto devastador da transferência e da contratransferência em seus discípulos que seus primeiros ensaios sobre técnica soavam como uma versão dos Dez Mandamentos, designados a advertir seus alunos sobre possíveis transgressões das fronteiras profissionais.

Contexto Histórico
Casos Famosos

⚖️ Violações vs. Cruzamentos de Fronteira

Diferenças Fundamentais

Alguns terapeutas iniciantes assumem uma postura de rigidez e distanciamento em seus relacionamentos com os pacientes, para assegurar que as fronteiras permaneçam intactas. Essa abordagem é um equívoco grave do papel das fronteiras na prática.

A estrutura deve sempre ser flexível o suficiente para acomodar diferenças individuais entre pacientes e terapeutas. Fronteiras de forma alguma sugerem frieza ou indiferença.

Cada díade terapeuta-paciente cria sua forma particular de interagir, por meio de um processo de negociação. Com alguns pacientes, o terapeuta usará humor para favorecer a aliança terapêutica. Com outros, que acham que o humor é às suas custas, ele se absterá de comentários bem-humorados.

Violações de Fronteira Cruzamentos de Fronteira
Transgressões potencialmente prejudiciais Rupturas benignas e até úteis
Podem ser sexuais ou não sexuais São atenuados e não evidentes
Costumam ser repetitivas Costumam ocorrer de forma isolada
Terapeuta tende a desencorajar exploração São discutíveis na terapia

Exemplo Ilustrativo

Situação: Após a morte de um membro próximo da família, o paciente chega ao terapeuta soluçando e esperando um abraço.

Cruzamento de Fronteira (potencialmente aceitável): O terapeuta devolve o abraço iniciado pelo paciente em um momento de tragédia.

Violação de Fronteira: O terapeuta toma a iniciativa e, em várias ocasiões, abraça o paciente, o que pode ser um prenúncio de transgressões progressivamente prejudiciais.

A falha em ser humano, em situações extraordinárias, pode ser um erro mais grave do que ver a fronteira em questão como inflexível.

⚠️ O "Terreno Escorregadio"

Nem todas as violações de fronteira não sexuais levam a conduta sexual imprópria, mas há um fenômeno bem conhecido, denominado "TERRENO ESCORREGADIO", que envolve a progressão gradual de violações de fronteira da mais sutil, e não sexual, ao franco envolvimento sexual.

Exemplo Clínico: O terapeuta tira vantagem da vulnerabilidade da paciente, usando o tempo para discutir suas próprias questões da vida pessoal. Ele perde de vista o aspecto fundamental de que o foco são os problemas do paciente, e não os do terapeuta.

Atenção Crítica
Discernimento Ético

🚫 Violações Não Sexuais de Fronteira

Monitoramento Contínuo da Contratransferência

O fato de que as violações não sexuais de fronteira podem ser altamente prejudiciais para o paciente exige monitoração cuidadosa da contratransferência, como uma maneira de perceber os primeiros passos nesse "terreno escorregadio".

Encenações (enactment) contratransferênciais, hoje, são consideradas uma forma de criação conjunta, envolvendo conflitos do próprio terapeuta, bem como a evocação de certas respostas neste que refletem o mundo objetal interno do paciente.

Exemplo: Pacientes com traumas da primeira infância internalizaram um cenário de relações objetais envolvendo uma vítima e um abusador. O terapeuta pode identificar-se com o objeto interno abusado e, de forma involuntária, vitimizar o paciente.

Áreas de Atenção Crítica:

1. Tempo

Quando os terapeutas descobrem-se prolongando regularmente a sessão bem além do final da hora, devem perguntar-se sobre os motivos disso. A flexibilidade ocasional é diferente do padrão repetitivo.

2. Local de Contato

A psicoterapia de orientação analítica costuma ser conduzida no consultório do profissional. Marcar uma sessão em outro lugar pode levantar dúvidas, na mente do paciente, sobre o propósito do encontro.

3. Dinheiro e Presentes

Os pacientes pagam aos terapeutas por seu tratamento porque a psicoterapia é um trabalho árduo. Terapeutas que permitem o acúmulo de grandes contas, sem perguntar pelo pagamento, ou que param de cobrar honorários podem passar uma mensagem problemática.

Terapeutas que aceitam presentes generosos talvez estejam sendo coniventes com o desejo do paciente de suprimir raiva ou agressividade. Pequenos presentes, especialmente aqueles feitos pelo paciente, podem ser aceitos de forma cortês sob algumas circunstâncias, mas sempre devem ser discutidos em termos de seu significado para o paciente.

4. Autorrevelação

A autorrevelação pode ser prejudicial para o paciente sempre que a assimetria do relacionamento terapêutico for alterada por causa dela. Como consideração geral, os terapeutas devem abster-se de partilhar materiais sobre suas vidas privadas que possam sobrecarregar o paciente.

5. Contato Físico Não Sexual

Na psicoterapia rotineira de consultório, o ideal é que a extensão do contato físico limite-se a apertos de mão. Entretanto, é difícil generalizar e dizer que um abraço nunca é aceitável. O impacto sobre o paciente pode ser bastante diferente da intenção do terapeuta. Pacientes que têm história de trauma sexual, por exemplo, talvez experimentem um abraço, ou mesmo um toque, como agressivos.

Zonas de Risco
Vigilância Ética

👥 Perfis de Terapeutas que Cometem Violações

Características e Dinâmicas

Dados Estatísticos: Ainda que a maioria dos casos de má conduta sexual ocorra em uma díade caracterizada por terapeuta do sexo masculino e uma paciente do sexo feminino, aproximadamente 20% dos casos acontece com terapeuta mulher que se envolve em relações sexuais com um paciente do sexo feminino ou masculino. Outros 20% dos casos ocorrem em díades do mesmo sexo.

1. Transtornos Psicóticos

Este grupo é uma categoria extremamente pequena, que envolve terapeutas cujo comportamento sexual com pacientes brotou de pensamento delirante secundário a mania, esquizofrenia ou outro transtorno psicótico.

2. Psicopatia Predatória

Mesmo que alguns terapeutas que se enquadram neste grupo sofram de transtorno da personalidade antissocial, outros têm transtorno da personalidade narcisista grave e apresentam comportamento psicopático, pelo qual não sentem remorso ou culpa.

3. Paixão

Este grupo inclui uma ampla gama de categorias diagnósticas. Alguns terapeutas podem ser neuroticamente organizados, muitos têm distúrbios narcisistas leves, e outros estão em um estado de crise pessoal e/ou profissional.

Ainda que presença ou ausência de amor seja irrelevante para considerações éticas, terapeutas que estão enamorados de seus pacientes podem argumentar que eles são "almas gêmeas". Esta categoria é mais comumente formada por terapeutas do sexo feminino, embora terapeutas homens também se ajustem a ela.

4. Rendição Masoquista

Eles podem ser considerados especialistas em tratar pacientes "difíceis" ou "impossíveis" e talvez tenham especial orgulho em atender casos que nenhum outro trataria. O que frequentemente descobrem é que estão repetindo um relacionamento objetal do passado, no qual se permitiram ser intimidados e controlados por um objeto exigente e torturador, como um pai sádico.

Perfis Clínicos
Dinâmicas de Risco

⏳ Ética nos Relacionamentos Após o Término

Debates e Posicionamentos Éticos

Divergência Institucional: Enquanto a Associação Psicanalítica Americana considera o contato sexual com um ex-paciente antiético, a Associação Psicanalítica Internacional não chegou à mesma conclusão. Alguns defendem que, após certo período de tempo, o desenvolvimento de um relacionamento sexual pode não ser contrário à ética.

Argumentos Contra Relacionamentos Pós-Término:

  • Todos os estudos da transferência, após o término, mostram que ela é instantaneamente restabelecida, mesmo anos depois do fim do tratamento, se o terapeuta e o paciente se encontrarem novamente.
  • Se há a possibilidade de um futuro relacionamento romântico ou sexual, a própria terapia esteve previamente contaminada.
  • Nenhuma das partes pode falar livremente sobre suas observações se desejam preservar uma imagem positiva aos olhos da outra.
Debate Ético
Posicionamentos