O outono em que espiei o império
No outono de 2005, sem muitas expectativas grandiosas, decidi criar um blog sobre política. Mal sabia que essa decisão me tornaria o primeiro elo entre Edward Snowden e o mundo. Minha especialidade era direito constitucional e direitos civis; minha inquietação, as teorias radicais de poder executivo adotadas após o 11 de Setembro.
Apenas sete semanas depois, o New York Times revelou a ordem secreta de Bush à NSA: grampos sem mandado, milhares de cidadãos vigiados, a lei contornada em nome da “segurança da nação”. O debate jurídico que se seguiu foi a convergência perfeita entre minha formação e minha paixão. E, dois anos depois, um livro best-seller e uma certeza incômoda: o presidente cometera crimes, mas o fanatismo patriótico já tornara essa opinião quase subversiva.
Foi esse histórico, anos mais tarde, que fez com que Edward Snowden me escolhesse como primeiro contato. Os documentos que me entregou não apenas escancararam a arquitetura da vigilância onipresente; reacenderam uma fibra muito mais antiga da democracia. As questões que emergiram dos arquivos da NSA, afinal, já haviam sido enfrentadas por colonos norte-americanos no século XVIII.
📜 1760–1791 · DA REVOLTA À EMENDAMandados genéricos, a mesma chaga
Quando os colonos protestaram contra os writs of assistance — que permitiam a agentes britânicos saquear casas sem mandado específico — não estavam apenas reagindo a um abuso. Fundaram uma ideia: o Estado pode obter mandados pontuais, com causa provável, mas jamais submeter a população inteira a revistas indiscriminadas. A Quarta Emenda consagrou essa barreira.
O alvo, no século XVIII, eram os armários e porões. Mas a técnica muda, a estrutura permanece. Ferrovias baratearam o correio e, em meados de 1800, o governo britânico abria correspondências em massa — escândalo vitoriano. Nos anos 1900, o Bureau of Investigation (futuro FBI) grampeava opositores, bisbilhotava cartas e infiltrava informantes. A vigilância sempre busca os mesmos corpos: dissidentes, marginalizados, aqueles que desafiam a ordem.
A tentação universal do poder
A lista de meio milhão de “subversivos” do FBI incluía Martin Luther King, John Lennon, feministas e até conservadores da John Birch Society. Mas a praga é universal. A Stasi, os departamentos de monitoramento dos impérios britânico e francês contra movimentos anticoloniais, os regimes de Assad, Mubarak e Kadafi — todos compraram equipamentos de vigilância ocidentais. A Bloomberg e o Wall Street Journal revelaram: o regime sírio pediu à italiana Area SpA que o ajudasse a “rastrear pessoas com urgência”; o Egito quebrou criptografia do Skype; a Líbia instalou “geladeiras pretas” da francesa Amesys para vasculhar e-mails e chats. O mesmo aparato que vigia sírios, líbios ou egípcios é irmão siamês daquele usado contra norte-americanos.
⚖️ 2006 · AUDIÊNCIA NO CONGRESSOO deputado republicano Christopher Smith comparou o Yahoo à polícia secreta chinesa. A audiência chamava-se “A internet na China: ferramenta de liberdade ou de supressão?” e condenava empresas por cooperarem com a censura chinesa. Ocorreu dois meses após a revelação do grampo ilegal da NSA. Brad Sherman, democrata, advertiu: “talvez algum futuro presidente, em nome de interpretações genéricas da Constituição, esteja lendo nossos e-mails sem mandado.”
A hipocrisia escancarava o excepcionalismo. Como denunciar outros regimes pela vigilância doméstica quando a administração Bush grampeava os próprios cidadãos sem autorização judicial? A diferença, diziam, era a intenção. Mas o aparato, a lógica e os alvos desenhavam a mesma silhueta autoritária.
A internet não é um lugar, é o único lugar
A geração que cresceu com a grande rede não acessa um espaço virtual separado: vive ali. A internet é o correio, o diário, a praça, o arquivo de afetos. É nela que construímos a individualidade. Transformar essa camada existencial em um sistema de vigilância contínua, indiscriminada e sigilosa é qualitativamente diverso de grampear um telefone ou abrir uma carta. É condicionar o pensamento antes mesmo que ele ouse se formar.
Os arquivos de Snowden expuseram que não se trata mais de monitorar suspeitos, mas de aspirar a vida digital inteira — metadados, localizações, relações, silêncios. A capacidade de armazenamento e análise tornou obsoleta a limitação física dos mandados. E a justificativa permanece a mesma desde 2001: terrorismo, segurança nacional, a exceção permanente.
Guerras de agressão, tortura, assassinatos sem acusação — tudo isso foi justificado pelo temor amplificado do terrorismo. Mas o sistema de vigilância onipresente pode ser a herança mais perene. Pois, diferentemente de uma guerra, ele não acaba. Ele se infiltra, silencia e redefine a liberdade.
Estamos em uma encruzilhada histórica
A era digital pode inaugurar a libertação individual e a democracia horizontal que só a rede permite. Ou pode consolidar o sistema de monitoramento mais difuso e profundo que a humanidade já concebeu — algo que nem os maiores tiranos do passado ousaram imaginar.
Hoje, os dois caminhos são possíveis. São as nossas ações que irão determinar nosso destino.
A coragem de Snowden, a facilidade de copiar dados, o choque mundial — tudo nos deu uma oportunidade rara: ver o sistema por dentro enquanto ainda há tempo. A Quarta Emenda foi escrita para abolir o poder de revistar corpos e lares sem justa causa. A mesma batalha, agora, se dá em servidores e cabos submarinos. O objeto mudou; o princípio, não.
Ao longo de séculos, a vigilância em massa mostrou sua vocação: sufocar a dissidência, encorajar a obediência. Uma população que se sabe observada aprende a se curvar. O outono de 2005 me ensinou que escrever era uma forma de resistir. Vinte anos depois, o que aprendi com Snowden é que a resistência não pode ser solitária — e que a história, quando não lembrada, se repete como gargantilha.
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