🌕 A Lua
Na Caixa-d'Água não tinha luz. Então, de noite, a gente vivia de olho no céu. Acompanhava o movimento das estrelas, sabia o nome de muitas delas. Sozinhas ou reunidas. O Cruzeiro do Sul, o sete-estrelo, as Três-Marias, o Caminho de São Tiago, a estrela-d'alva, de madrugada, anunciando o romper do dia. De acompanhar o Cruzeiro por exemplo, a gente sabia que o céu virava, dava cambota.
A Lua regia a vida das pessoas. Pra tirar lenha, pescar, castrar gado e cachorro sem arruinar, influía em tudo. Na dureza ou no caruncho da madeira, amolecendo os dentes dos peixes, fazendo o gado mudar de cor, ficando com o pêlo mais claro ou mais escuro. Minha mãe dizia que a Lua encantava as pessoas e tinha muito poder. Que tudo de ruim vinha dela. Almas penadas, vestidas de branco, assombrações, mula-sem-cabeça, tudo aparecia com a Lua. Menos o Saci, que é no ridimunho, de dia, formado pelo vento. Principalmente mês de agosto, tempo de cachorro doido.
- A Lua já foi mulher - garantia minha mãe, com ar misterioso.
Ela nascia atrás da capoeira, no fundo da Casa Velha, bem dentro da nossa horta. De tanto ficar vendo a Lua nascer, um dia tive uma idéia. Que criança, o que mais tem é idéia. Só que gente grande não tem paciência, nem fica sabendo da maioria delas. Mas eu, com meu pai e meu avô, podia inventar o que quisesse. Então, falei pro meu pai:
- A Lua hoje vai ser grande e cheia, não vai?
- Vai, por quê?
- Tô pensando numa coisa. Catar um bambu, subir nessa laranjeira mais alta... Quando ela passar no meio dos galhos ou perto da laranjeira, dou uma bambu-zada e derrubo ela aqui no fundo da horta. Aí a gente pode chegar perto, examina bem, vê se tem mesmo o São Jorge com o dragão... Ah, e o cavalo, né?
Meu pai não falou nada. De tardinha, depois da obrigação, pegou uma faca bem amolada, cortou um bambu dos grandes, limpou, deixou no jeito, encostado no pé de laranja.
Na hora que o clarão ficou bem bonito atrás da capoeira, eu subi na árvore, bambu na mão, os dois na janela da cozinha tomando conta, vigiando.
- Põe sentido, que ela já vai apontar! - preveniu meu avô.
- Apontou! - avisou meu pai, alegre feito menino.
Do alto da laranjeira, bambu na mão, pés bem firmes na forquilha, eu vi a Lua aparecendo. Quando ela acabou de apontar, coloquei o bambu na posição.
- Será que já pode? - perguntei.
- Pode. Concentra bem, vai com fé! - respondeu meu pai.
- Firma, apóia, pra não desequilibrar - aconselhou meu avô.
Enquanto experimentava uma primeira cutucada, quis saber:
- Aqui?
- É. Ai mesmo. Será que o bambu vai dar?
- Acho que vai! - respondi.
Chuchei, chuchei, com a maior força, com toda a fé, como mandou meu pai. Os dois, da janela da cozinha, ajudavam:
- Mais pra cima!
- Isso, força!
Eu lá, pelejando, eles ajudando. De repente me deu uma agonia danada. Eles me animavam mas eu não sabia se estava conseguindo. Aí a Lua subiu, saiu do meu alcance. De tão chateado, desacorçoei de falar.
- E aí, valeu a pena? - perguntou vovô, quebrando o silêncio.
- Ah, acho que não deu, não.
- Deu, sim! - garantiu meu pai.
- Acompanhei tudo. Daqui a gente viu, direitinho! Você conseguiu, Zezito! - falou vovô, meio gritado, como se me desse os parabéns.
- Mas eu não senti nada...- respondi, duvidando.
- É porque ela é de fumaça, aí a gente não sente quando cutuca. Mas você pode ter certeza! - garantiu meu pai uma vez mais.
Ele falou olhou pro meu avô, que sacudiu a cabeça e fez uma cara muito boa, muito feliz, e confirmando.
Os mundos daquele tempo. São Paulo, Atual, 1990. p. 11-4.
Vocabulário
- cambota:
- forma popular de cambalhota
- reger:
- dirigir, orientar, guiar
- ridimunho:
- forma popular de redemoinho: movimento em círculo causado pelo cruzamento de ondas ou ventos contrários
- forquilha:
- pau ou tronco bifurcado
- pelejar:
- lutar, batalhar
- desacorçoar:
- desanimar, perder a vontade
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