š§ Transtornos de Ansiedade na InfĆ¢ncia e AdolescĆŖncia
Historicamente, os transtornos de ansiedade na infĆ¢ncia foram considerados pouco relevantes, vistos como quadros raros, transitórios e de baixo impacto. Contudo, nas Ćŗltimas duas dĆ©cadas houve uma mudanƧa significativa: estudos epidemiológicos e clĆnicos demonstraram nĆ£o apenas sua elevada prevalĆŖncia, mas tambĆ©m seu potencial de cronificação e de predisposição a outras psicopatologias na adolescĆŖncia e na vida adulta.
Hoje, entende-se que as manifestações ansiosas na infância compõem um grupo heterogêneo de quadros, mas que compartilham a presença de medo, preocupação e, sobretudo, comportamentos de evitamento diante da expectativa de ameaça.
š Epidemiologia: Dados e EstatĆsticas
Os transtornos de ansiedade estĆ£o entre as condiƧƵes psiquiĆ”tricas mais comuns na infĆ¢ncia e adolescĆŖncia, apresentando inĆcio precoce e curso geralmente crĆ“nico. Representam um dos primeiros grupos de psicopatologias a se manifestarem no desenvolvimento.
š Principais Achados Epidemiológicos:
- As fobias especĆficas sĆ£o as mais prevalentes, seguidas por ansiedade de separação, TAG e fobia social
- Transtorno de pânico e agorafobia são menos frequentes em idades precoces
- Diferenças de gênero consistentes: meninas com taxas 1,5 a 2 vezes maiores
- Grande estabilidade longitudinal, com baixa taxa de remissão espontânea
- Risco aumentado para outras psicopatologias na vida adulta
š Quadros ClĆnicos e Abordagem PsicodinĆ¢mica
Na perspectiva psicodinâmica, a ansiedade na infância pode ser entendida como um sinal de falhas no processo de elaboração dos medos normativos do desenvolvimento. Quando os recursos de simbolização são insuficientes ou quando o ambiente falha na função de contenção, esses medos podem se cristalizar em sintomas patológicos.
𧬠Etiologia: Fatores de Risco e Vulnerabilidade
š Interação de Fatores:
- GenĆ©tica: 30-40% da variabilidade dos sintomas ansiosos atribuĆda Ć hereditariedade
- Temperamento: Inibição comportamental aumenta risco em até 4 vezes
- Fatores familiares: Pais ansiosos/depressivos, superproteção, transmissão de medos
- Ambiente: Bullying, rejeição, violência familiar, abuso, separações conflituosas
- Perspectiva psicanalĆtica: FamĆlia como continente para angĆŗstias infantis
Os transtornos de ansiedade em crianƧas e adolescentes resultam da interação entre predisposiƧƵes biológicas, caracterĆsticas temperamentais e influĆŖncias familiares e ambientais. A famĆlia contribui tanto como transmissora genĆ©tica quanto como palco das dinĆ¢micas psĆquicas que favorecem a emergĆŖncia da ansiedade.
š Tratamento: Abordagens TerapĆŖuticas
š§ Psicoterapia (NĆŗcleo do Tratamento)
š¹ Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)
Programa estruturado com psicoeducação, treinamento de habilidades, reestruturação cognitiva e exposição gradual. 8-15 sessões. EficÔcia de 50-60% ficam assintomÔticos ao final (70-80% em 12 meses). Inclusão dos pais melhora adesão e generalização.
šø Psicoterapia PsicodinĆ¢mica/AnalĆtica
CompreensĆ£o da ansiedade como expressĆ£o de falhas no desenvolvimento emocional e vĆnculos primĆ”rios. Trabalha simbolização das angĆŗstias, conflitos de separação/autoestima e padrƵes relacionais. Frequentemente inclui trabalho com os pais.
š Farmacoterapia
š IndicaƧƵes:
- Sintomas graves/incapacitantes
- Falha de psicoterapia adequada
- Comorbidades que perpetuam o quadro
- Indisponibilidade de terapia
š 1ĀŖ Linha: ISRS
Fluoxetina: 5-40 mg/dia
Sertralina: 12,5-200 mg/dia
Escitalopram: 5-20 mg/dia
Evitar paroxetina
Resposta de 50-60% vs 30% placebo
š 2ĀŖ Linha: IRSN
Venlafaxina XR: 37,5-225 mg/dia
Duloxetina: 30-60 mg/dia
Após falha de dois ISRS em dose/tempo adequados
⚠️ Monitorização e SeguranƧa
• Monitorar suicidabilidade nas primeiras semanas
• Efeitos frequentes: GI, ativação, cefaleia
• Manter por 6-12 meses após remissĆ£o
• Retirada lenta para evitar sĆndrome de descontinuação
šÆ ConclusĆ£o
Os transtornos de ansiedade na infĆ¢ncia deixaram de ser vistos como fenĆ“menos passageiros para se tornarem objeto central de investigação, prevenção e intervenção precoce. A integração entre a clĆnica psiquiĆ”trica (sintomas observĆ”veis e critĆ©rios diagnósticos) e a leitura psicodinĆ¢mica (enraizamento em falhas evolutivas, conflitos inconscientes e defesas insuficientes) favorece uma compreensĆ£o mais ampla, tanto do ponto de vista diagnóstico quanto terapĆŖutico.
O manejo adequado combina intervenções psicoterapêuticas (TCC e/ou psicodinâmica) com farmacoterapia quando indicada, sempre considerando o contexto familiar e desenvolvimental da criança.
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