Atividades Semânticas - Análise do Texto "Maria"

📖 Atividades sobre Propriedades Semânticas

Análise do conto "Maria" de Conceição Evaristo

Disciplina: Semântica e Pragmática
Universidade Federal de Pelotas
Professora Luciane Martin
🎯 Análise Semântica Aprofundada
Semântica Sinonimia Conotação Denotação Polissemia Contexto Linguística Interpretação Conceição Evaristo Análise textual

Texto para Análise: "Maria"

Maria estava parada há mais de meia hora no ponto de ônibus. Estava cansada de esperar. Se a distância fosse menor, teria ido a pé. Era preciso mesmo ir se acostumando com a caminhada. Os ônibus estavam aumentando tanto! Além do cansaço, a sacola estava pesada.

No dia anterior, no domingo, havia tido festa na casa da patroa. Ela levava para casa os restos: o osso do pernil e as frutas que tinham enfeitado a mesa. Ganhara as frutas e uma gorjeta. O osso a patroa ia jogar fora. Estava feliz, apesar do cansaço. A gorjeta chegara numa hora boa. Os dois filhos menores estavam muito gripados. Precisava comprar xarope, aquele remedinho de desentupir o nariz. Daria para comprar também uma lata de Toddy.

As frutas estavam ótimas e havia melão. As crianças nunca tinham comido melão. Será que os meninos gostariam de melão?

A palma de uma de suas mãos doía. Tinha sofrido um corte, bem no meio, enquanto cortava o pernil para a patroa. Que coisa! Faca-laser corta até a vida.

Quando o ônibus apontou lá na esquina, Maria abaixou o corpo, pegando a sacola que estava no chão entre as suas pernas. O ônibus não estava cheio, havia lugares. Ela poderia descansar um pouco, cochilar até a hora da descida.

🔍 Trecho-chave para análise semântica

Ao entrar, um homem levantou lá de trás, do último banco, fazendo um sinal para o trocador. Passou em silêncio, pagando a passagem dele e de Maria. Ela reconheceu o homem. Há quanto tempo, que saudades! Como era difícil continuar a vida sem ele.

Maria sentou-se na frente. O homem assentou-se ao lado dela. Ela se lembrou do passado. Do homem deitado com ela. Da vida dos dois no barraco. Dos primeiros enjoos. Da barriga enorme que todos diziam gêmeos, e da alegria dele.

Que bom! Era um menino! E haveria de se tornar um homem. Maria viu, sem olhar, que era o pai do seu filho. Ele continuava o mesmo. Bonito, grande, o olhar assustado não se fixando em nada e em ninguém. Sentiu uma mágoa imensa. Por que não podia ser de outra forma? Por que não podiam ser felizes?

"E o menino, Maria? Como vai o menino?" cochichou o homem. "Sabe que sinto falta de vocês? Tenho um buraco no peito, tamanha a saudade! Tô sozinho! Não arrumei, não quis mais ninguém. Você já teve outros... outros filhos?"

A mulher baixou os olhos como que pedindo perdão. Ela teve mais dois filhos. Mas eles não tinham ninguém também! Homens também? Eles haveriam de ter outra vida. Com eles tudo haveria de ser diferente.

"Maria, não te esqueci! Tá tudo aqui no buraco do peito..."

O homem falava, mas continuava estático, preso, fixo no banco. Cochichava com Maria as palavras, sem se virar para o lado dela. Ele sabia o que o homem dizia. Ele estava dizendo de dor, de prazer, de alegria, de filho, de vida, de morte, de despedida. Do buraco-saudade no peito dele...

Desta vez ele cochichou um pouquinho mais alto. Ela, ainda sem ouvir direito, adivinhou a fala dele: um abraço, um beijo, um carinho no filho. E logo após, levantou rápido sacando a arma. Outro lá atrás gritou que era um assalto.

Maria estava com muito medo. Não dos assaltantes. Não da morte. Sim da vida. Tinha três filhos. O mais velho, com onze anos, era filho daquele homem que estava ali na frente com uma arma na mão.

O de lá de trás vinha recolhendo tudo. O motorista seguia a viagem. Havia o silêncio de todos no ônibus. Apenas a voz do outro se ouvia pedindo aos passageiros que entregassem tudo rapidamente.

O medo da vida em Maria ia aumentando. Meu Deus, como seria a vida dos seus filhos? Era a primeira vez que ela via um assalto no ônibus. Imaginava o terror das pessoas.

O comparsa de seu ex-homem passou por ela e não pediu nada. Se fossem outros os assaltantes? Ela teria para dar uma sacola de frutas, um osso de pernil e uma gorjeta de mil cruzeiros. Não tinha relógio algum no braço. Nas mãos nenhum anel ou aliança. Aliás, nas mãos tinha sim! Tinha um profundo corte feito com faca-laser que parecia cortar até a vida.

Os assaltantes desceram rápido. Maria olhou saudosamente e desesperada para o primeiro. Foi quando uma voz já acordou a coragem dos demais. Alguém gritou que aquela puta safada conhecia os assaltantes. Maria se assustou. Ela não conhecia assaltante algum. Conhecia o pai do seu primeiro filho. Conhecia o homem que antes tinha sido dela e que ela ainda amava tanto.

Ouviu uma voz acrescentar: "Negra safada, vai ver que ela estava junto com eles, teria descido também". Alguém argumentou que ela não tinha descido só para disfarçar. Estava mesmo com os ladrões. Foi a única a não ser assaltada.

"Mentira, eu não fui e não sei porquê." Maria olhou na direção de onde vinha a voz e viu um rapazinho negro e magro, com feições de menino e que lembrava vagamente o seu filho.

A primeira voz, a que acordou a coragem de todos, tornou-se um grito: "Aquela puta, aquela negra safada estava com os ladrões!" O dono da voz levantou-se e encaminhou em direção a Maria.

A mulher teve medo e raiva. Que merda! Não conhecia assaltante algum. Não devia satisfação a ninguém. "Olha só, a negra ainda é atrevida", disse o homem, dando um tapa no rosto da mulher.

Alguém gritou: "Lincha! Lincha! Lincha!" Uns passageiros desceram e outros voaram em direção a Maria. O motorista tinha parado o ônibus para defender a passageira: "Calma, pessoal! Que loucura é esta? Eu conheço esta mulher de vista. Todos os dias, mais ou menos neste horário ela toma o ônibus comigo. Está vindo do trabalho, da luta para sustentar os filhos."

"Lincha! Lincha! Lincha!" Maria punha sangue pela boca, pelo nariz e pelos ouvidos. A sacola havia arrebentado e as frutas rolavam pelo chão. Será que os meninos gostariam de melão?

Tudo foi tão rápido, tão breve. Maria tinha saudades do seu ex-homem. Por que estavam fazendo isto com ela? O homem havia segredado um abraço, um beijo, um carinho no filho. Ela precisava chegar em casa para transmitir o recado. Estavam todos armados com facas-laser que cortam até a vida.

Quando o ônibus esvaziou, quando chegou a polícia, o corpo da mulher já estava todo dilacerado, todo pisoteado.

Maria queria tanto dizer ao filho que o pai havia mandado um abraço, um beijo, um carinho.

(Conceição Evaristo - Olhos d'água, p. 39-42)

Questões de Análise Semântica

1 Na linha 5 em "Ganhou as frutas e uma gorjeta", "gorjeta" poderia ser substituído por "gratificação"? Explique com base no conceito de sinonimia.
Sinonimia Substituição Lexical

Sim, "gorjeta" poderia ser substituído por "gratificação" mantendo o sentido básico de valor adicional dado por um serviço prestado. Ambas as palavras compartilham o traço semântico de remuneração extra além do combinado. No entanto, há uma diferença contextual: "gorjeta" é mais coloquial e associada a serviços do dia a dia (garçons, taxistas), enquanto "gratificação" tem um tom mais formal. Neste contexto específico, "gorjeta" mantém melhor a simplicidade da narrativa e a realidade social da personagem. 🔄

2 Na linha 11, explique o sentido da expressão em destaque: "Que coisa! Faca-laser corta até a vida!"
Análise de Sentido Expressividade

A expressão possui um sentido metafórico e hiperbólico. A "faca-laser" representa não apenas um objeto físico que corta carne, mas também as dificuldades e violências da vida que "cortam" a existência humana. O "até a vida" intensifica a ideia de que os sofrimentos e trabalhos árduos (como o corte real que Maria sofreu) podem ter consequências que vão além do físico, atingindo a essência vital. É uma expressão que condensa a dor física com o cansaço existencial da personagem. 💔

3 Nas linhas 28-29 em "Ele estava dizendo de dor, de prazer, de alegria, de filho, de vida, de morte, de despedida". A troca do verbo "dizendo" por "falando" traz algum prejuízo semântico? Explique.
Verbos de Elocução Nuances Semânticas

A troca traz um leve prejuízo semântico. "Dizendo" implica conteúdo, mensagem transmitida, enquanto "falando" refere-se mais ao ato físico de produzir sons articulados. No contexto, o homem não está apenas vocalizando palavras ("falando"), mas comunicando sentimentos profundos e experiências existenciais ("dizendo"). A escolha de "dizendo" enfatiza a carga significativa da comunicação, não apenas sua forma. A substituição diminuiria a força emocional da passagem. 🗣️→💬

4 Nas linhas 35-36, em "O medo da vida em Maria ia aumentando", explique o efeito de sentido produzido pelo termo "vida". Por que não "medo da morte"?
Paradoxo Semântico Contraste

O uso de "vida" em vez de "morte" cria um paradoxo significativo. Enquanto o medo da morte seria esperado numa situação de assalto, Maria teme continuar vivendo com as consequências do ato - a possibilidade de o pai de seu filho ser preso ou morto, o sustento da família comprometido, o trauma para os filhos. A "vida" aqui representa as dificuldades, responsabilidades e sofrimentos futuros, não a cessação da existência. Esse deslocamento semântico revela a profundidade psicológica da personagem. 😨➡️👨‍👦

5 Na linha 37, a troca do substantivo "ex-homem" por "ex-marido" produz alguma mudança de sentido? Explique.
Relações Semânticas Realidade Social

Sim, produz uma mudança significativa. "Ex-marido" pressupõe um casamento formalizado legal ou religiosamente, enquanto "ex-homem" refere-se a um companheiro com quem se teve um relacionamento estável, mas sem formalização. No contexto da personagem Maria, que vive na periferia e em condições de pobreza, "ex-homem" reflete melhor sua realidade social, onde uniões consensuais são comuns. A troca por "ex-marido" importaria um formalismo inexistente na história, alterando a representação social do texto. 👫➡️💔

6 Que sentido possível produzir a partir da expressão "facas-laser" em: "Estavam todos armados com facas-laser que cortam até a vida", na linha 62?
Metáfora Estendida Polissemia

As "facas-laser" funcionam como metáfora continuada que percorre todo o texto. Elas representam:

  1. Violência física real (as armas dos assaltantes)
  2. Instrumentos de trabalho opressivos (a faca que cortou a mão de Maria)
  3. As dificuldades da vida pobre que "cortam" as possibilidades existenciais
  4. O preconceito e a violência social que literalmente matam Maria no linchamento

A expressão condensa múltiplas camadas de violência - física, social, psicológica - que atravessam a existência das personagens marginalizadas. ⚔️🔪

7 Construa uma paráfrase dos dois últimos parágrafos (linhas 60-64).
Paráfrase Reformulação
📝 Minha Paráfrase

Texto original: "Tudo foi tão rápido, tão breve. Maria tinha saudades do seu ex-homem. Por que estavam fazendo isto com ela? O homem havia segredado um abraço, um beijo, um carinho no filho. Ela precisava chegar em casa para transmitir o recado. Estavam todos armados com facas-laser que cortam até a vida. Quando o ônibus esvaziou, quando chegou a polícia, o corpo da mulher já estava todo dilacerado, todo pisoteado. Maria queria tanto dizer ao filho que o pai havia mandado um abraço, um beijo, um carinho."

Minha paráfrase: Os eventos transcorreram com extrema velocidade. Maria sentia nostalgia pelo antigo companheiro. Não compreendia a razão daquela violência contra si. O pai de seu filho sussurrara mensagens afetivas para a criança. Sua urgência era levar até o filho aquelas palavras de carinho. A violência ao seu redor era tão profunda quanto cortes que atingem a própria existência. Com a saída dos passageiros e a chegada das autoridades, seu corpo já estava irreconhecível, destruído pela multidão. Seu último desejo era compartilhar com o filho as demonstrações de afeto enviadas pelo pai. 💌➡️👶

Paráfrase mantendo os elementos semânticos essenciais: brevidade dos eventos, saudade, incompreensão da violência, mensagem afetiva, metáfora da violência, destruição física e desejo final de comunicação.

📚 Atividade de análise semântica - Disciplina Semântica e Pragmática

Universidade Federal de Pelotas - Centro de Letras e Comunicação

Texto: "Maria" de Conceição Evaristo (Olhos d'água, p. 39-42)

Desenvolvido para fins educacionais ✨

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