Encruzilhada histórica: o legado da vigilância e a internet que queremos
✍️ No outono de 2005, sem grandes expectativas, um advogado especializado em direitos civis criou um blog sobre política. A motivação: a crescente apreensão com as teorias de poder extremistas adotadas pelo governo dos EUA pós-11 de Setembro. Sete semanas depois, o New York Times denunciou a espionagem secreta da NSA — uma ordem presidencial para grampear norte-americanos sem os mandados exigidos por lei. O acaso (ou a história) uniu paixão e especialidade.
📘⚡ BEST-SELLER 2006 · “posição controversa: presidente cometeu crimes”A resposta do governo foi exatamente a teoria extrema de executivo que me levara a escrever: a segurança da nação autorizaria o presidente a violar a lei. Durante dois anos cobri cada aspecto do escândalo — no blog e num livro que se tornou best-seller. Defendi que o presidente deveria ser responsabilizado criminalmente. Em um país tomado por patriotismo fanático, essa posição era tida como radical. Mas foi esse histórico que, anos depois, levou Edward Snowden a me procurar. ❄️ Ele disse: “confio que você não recuará”.
📋⏳ A tentação universal do poder
A vigilância em massa não nasceu no século XXI. Os colonos norte-americanos já resistiam aos mandados genéricos da coroa britânica — revistas indiscriminadas, sem causa provável. A Quarta Emenda foi a resposta: “O direito dos cidadãos à segurança de sua pessoa, casas, documentos e bens contra revistas e confiscos não fundamentados não será violado”. O princípio parecia eterno. No entanto, a história trata de repetir padrões.
Os exemplos são gêmeos na essência: eliminar dissidências, garantir submissão. Na Síria, funcionários da Area SpA foram convocados às pressas. No Egito, a polícia secreta comprou kits para quebrar a criptografia do Skype. E enquanto isso, em 2006, no Congresso americano, o deputado Christopher Smith comparou o Yahoo — que cooperara com a polícia chinesa — a “entregar Anne Frank aos nazistas”. Ironia trágica: apenas dois meses antes, os grampos da administração Bush (sem mandado) tinham vindo a público. Brad Sherman advertiu: “talvez algum futuro presidente, com interpretações genéricas da Constituição, esteja lendo nossos e-mails”. 📧👀
🔐🧭 A encruzilhada: para onde caminha a internet?
A singularidade do escândalo da NSA não está apenas na escala, mas na textura da nossa vida. A internet não é um compartimento estanque — é a totalidade do mundo. Amizades, afetos, ativismo, descobertas. É nela que construímos a individualidade. Instalar a vigilância onipresente na internet significa submeter cada pensamento, cada relação, cada projeto ao escrutínio do Estado. Converter a rede em sistema de vigilância esvazia seu potencial libertador. Ela se torna, então, ferramenta de repressão, uma arma de intrusão estatal como a história jamais viu.
As revelações de Snowden nos colocam diante de um bivium histórico. A era digital pode inaugurar a liberdade política e individual sem precedentes — ou criar um sistema de monitoramento que nem os maiores tiranos conceberam. Os dois caminhos estão abertos. As nossas ações, a nossa memória, a nossa recusa em normalizar o inaceitável determinarão o destino.
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