O SILÊNCIO E O GRITO
Há silêncios que pesam mais do que qualquer sentença. E naquela manhã de sexta-feira, o silêncio de um homem chamou mais atenção do que os gritos de uma multidão inteira. O céu sobre Jerusalém estava cinzento, não de nuvens, mas de algo que pairava no ar — um presságio que os pássaros sentiram e emudeceram.
Pilatos olhou para Ele e viu o que todos viam: um homem cansado, coroado de espinhos, mãos atadas, o corpo marcado pelos açoites. Mas havia algo naqueles olhos que o procuravam sem rancor, algo que o governador romano, acostumado a ler culpados, não conseguia decifrar. Não era desafio, não era medo, não era súplica. Era uma quietude que parecia vir de outro lugar.
Pilatos quase implorava por uma defesa, por uma palavra que lhe permitisse soltá-lo. Os romanos prezavam a lei, e ele sabia que ali não havia crime. Mas Jesus silenciou. E esse silêncio ecoou mais alto que todos os "crucifica-o" que viriam a seguir. Era o silêncio do Cordeiro diante dos tosquiadores, dizem as Escrituras. Mas era também o silêncio de quem sabe que palavras, naquela hora, seriam gotas no oceano da multidão.
escolheu o silêncio
✻
A multidão, ah, a multidão... Sempre tão certa de suas verdades. Horas antes, talvez alguns daqueles mesmos rostos tivessem estendido ramos pelo caminho, gritado "hosana". Agora gritavam "crucifica". A multidão lava a alma com gritos, purifica-se no coro, esconde-se no anonimato do coletivo. Se todos gritam, ninguém é responsável pelo grito. E como é fácil convencer uma multidão — basta dar-lhe uma direção, qualquer direção.
— Crucifica-o! Crucifica-o! — o coro subia, espesso, envolvente.
Pilatos pediu água. Lavou as mãos diante de todos. Água fria escorrendo sobre os dedos, levando embora a culpa que ele sabia que ficaria. Gestos vazios, mas bonitos. A história lembraria dele como aquele que lavou as mãos, como se a culpa fosse algo que se lava com água. Como se o sangue de um justo pudesse ser eliminado com um pouco de água e muito teatro.
E Jesus? O profeta da Galiléia, que multiplicara pães, que devolvera a vista a cegos, que dissera "vinde a mim todos os que estais cansados", agora estava só. Os discípulos tinham fugido. Pedro o negara três vezes, como um galo cantou. João estava por perto, mas João sempre esteve por perto. A multidão era dele agora — não a multidão que o seguia, mas a que o condenava.
Barrabás foi solto. O assassino ganhou a rua. O inocente ganhou a cruz. E a multidão comemorou, porque sempre é mais fácil soltar um ladrão conhecido do que carregar um justo incompreendido.
Ali, no pretório, a história prendeu a respiração. O veredito foi dado: "Inocente, mas condenado." Dois milênios depois, ainda vivemos essa contradição. Quantos inocentes são condenados todos os dias em tribunais, em redes sociais, em julgamentos sumários? Quantas vezes fazemos coro com a multidão sem perguntar quem é aquele que estamos crucificando?
Pilatos entregou Jesus para ser crucificado. Os soldados tomaram conta dEle. E o silêncio continuou. Um silêncio que atravessaria os séculos, que atravessaria as pedras, que chegaria até nós como um eco: "Pai, perdoa-lhes, não sabem o que fazem."
E não sabiam mesmo. Não sabiam que aquele condenado era o juiz. Não sabiam que aquele silêncio era a maior palavra já dita. Não sabiam que, ao condená-lo, estavam assinando a própria absolvição.
Post a Comment